Em 2026 é preciso que os corações e mentes se elevem como uma águia
O Pequeno Grande Homem, personagem de Dustin Hoffman no extraordinário filme de Arthur Penn, é o Forrest Gump da geração imediatamente anterior a Tom Hanks. Ele perpassa a História – menos a de fatos concretos, mais a humana: criado pelos índios, orientado por Custer (algoz e vítima dos cheyennes) a desbravar o Velho Oeste, casa-se com uma imigrante, aprende a atirar com olhos de lince, torna-se amigo do lendário Wild Bill, o ex-marido de Calamity Jane, guia o General em sua derrocada final e, mais importante, presencia a bravura, a honra, as misérias e a torpeza de toda a gente, homens brancos e peles vermelhas – e ainda por cima, vejam só, esnoba Faye Dunaway (pós “Bonnie & Clyde”, a gênese da violência urbana, e antes de “Chinatown”, a corrupção nas entranhas do Poder Público).
O chefe Cheyenne Old Lodge, avô de criação do Pequeno Grande Homem, era cego e, também por isso, gostava de ouvir as histórias. Dizia ele que fazia seu coração se elevar como uma águia.
Não me lembro exatamente quantas vezes ele diz isso no filme (a memória está indo embora, não estou próximo a uma estante, de um livro físico, para confirmar e, não vou, lógico, procurar no Google ou na IA, pois é uma história humana que estou a contar), mas ele usava a expressão ao final de relatos de feitos da sua gente – não necessariamente de vitórias, mas obrigatoriamente de lutas.
O filme foi um marco e logo depois ganhou a companhia de “Corações e Mentes”, o documentário de Peter Davies, que ao retratar a Guerra do Vietnã, também defende a elevação do espírito diante das dificuldades do dia a dia, com uma conclusão óbvia, mas revolucionária para a época: as guerras, as tradicionais e as “pequenas” do cotidiano, não são produtos apenas do militarismo e da busca do poder, mas também da incapacidade de aceitar a visão e a vitória dos outros.
Valeu para aquela época, a partir do universo das artes. Vale para hoje, no mundo do trabalho e da política.
2026 será um ano importante demais para não se pensar alto. Aos sindicatos e aos trabalhadores, na defesa de direitos e do futuro, não será permitido se abaixar. No máximo se ajoelhar, mas apenas em dois sentidos: com a “alma de joelhos” descrita por Victor Hugo na epopeia dos antes sem valor ou para agradecer as vitórias.
Ailton Alves
Jornalista do SINSERPU-JF