Série Especial “A Cidade Invisível”, Episódio 8 : O Mercado Que Mata – A Geografia da Exclusão
“A concentração de 130 mil pessoas em zonas de risco não é produto de caprichos geológicos, mas de um modelo de urbanização periférica que opera pela exclusão das populações de menor renda das porções territorialmente mais seguras.”
O artigo de Albertoni escancara o mecanismo perverso que a série histórica do SINSERPU-JF já vinha documentando: o mercado fundiário urbano valoriza o solo seguro e o torna inacessível aos pobres. As famílias de baixa renda são sistematicamente empurradas para os domínios de maior instabilidade geomorfológica — encostas íngremes, margens de rios, áreas de proteção ambiental.
Não é falta de informação. É falta de opção.
Quando a prefeita Margarida Salomão afirma que “a população de menor renda acaba morrendo nos deslizamentos enquanto aqueles com mais recursos encontram outro lugar”, ela diagnostica com precisão cirúrgica a desigualdade estrutural. Mas o artigo adverte para um risco: o diagnóstico não pode absolver os responsáveis.
A desigualdade brasileira não é uma força anônima. Ela tem mecanismos verificáveis, atores identificáveis, decisões datadas e orçamentos auditáveis. O mercado imobiliário que expulsa os pobres para as áreas de risco tem nomes, tem incorporadoras, tem financiamento público, tem lobby nas câmaras municipais.
O racismo ambiental
Os dados desagregados por raça e gênero — que a Defesa Civil sequer produziu — revelariam um padrão ainda mais cruel: as vítimas dos deslizamentos são, em sua esmagadora maioria, negras. Mulheres negras, chefes de família, responsáveis por crianças e idosos.
A invisibilidade desses dados não é uma lacuna administrativa menor. É a invisibilização institucional de um padrão de impacto diferencial que, não nomeado, não pode ser adequadamente endereçado por políticas públicas de prevenção.
O SINSERPU-JF exige: a reconstrução de Juiz de Fora precisa passar por um choque de transparência no mercado imobiliário. Chega de empurrar os pobres para o morro enquanto o plano é loteado para condomínios de luxo. O solo seguro precisa ser democratizado.
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Obs. 1) o artigo citado, “A arquitetura da vulnerabilidade, de Ramsés Albertoni, foi publicado no Observatório da Imprensa
2) Os sete primeiros episódios da série estão disponíveis neste canal