Série especial “A Cidade Invisível” produzida pelo SINSERPU-JF – Episódio 2: A Farra dos Loteamentos Clandestinos e a Ausência do Estado
Se a cidade cresceu “a custo de favelização”, como denuncia o título do documento histórico, isso não aconteceu por acaso. Aconteceu porque, durante décadas, o mercado imobiliário e o poder público fizeram vistas grossas para a especulação predatória.
O boom populacional e o vazio das políticas públicas
Entre 1960 e 1980, a população de Juiz de Fora saltou de 181 mil para 307 mil habitantes. Esse crescimento, impulsionado pelo fluxo migratório e pela criação de novos cursos na UFJF, deveria ter sido acompanhado por políticas habitacionais robustas. Não foi.
O documento revela que, enquanto a universidade aquecia o mercado imobiliário no entorno da Cidade Alta — com construções voltadas para o lucro do aluguel —, a população pobre era simplesmente ignorada. A especulação imobiliária nos bairros nobres empurrava os trabalhadores cada vez mais para longe, para regiões sem qualquer infraestrutura.
A Zona Norte: o retrato do abandono
O caso mais emblemático é o da Zona Norte. Na década de 1970, o poder público decidiu instalar um polo industrial na região, prometendo empregos e desenvolvimento. Famílias inteiras migraram para bairros como Benfica, atraídas pela ilusão de uma vida melhor.
Mas o documento é implacável: “muitas famílias que passaram a viver naquela região não lograram sucesso no propósito buscado e passaram a fazer parte de uma massa de desempregados sem condições de obter uma moradia legalizada, favorecendo o desenvolvimento de ocupações precárias” .
Ou seja: o Estado criou a demanda, atraiu trabalhadores, mas recusou-se a fornecer moradia digna. O resultado? Ocupações desordenadas, ausência de saneamento, casas construídas em áreas de risco. O cenário perfeito para a tragédia de 2026.
O SINSERPU-JF denuncia: não há como falar em calamidade pública sem falar em omissão histórica. Os servidores que hoje trabalham no resgate e na limpeza das áreas atingidas são os mesmos que há décadas alertam para a necessidade de políticas habitacionais efetivas.
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OBS.: A) A série “A Cidade Invisível” tem como objetivo trazer uma reflexão aprofundada sobre as estruturas urbanas de Juiz de Fora a partir de análises e levantamentos diversos, que vão desde o documento acadêmico “Crescimento a Custo da Favelização”, de Ellen Rodrigues e Luiza Cunha Lenzi, até os dados oficiais sobre a calamidade pública que atingiu o município em fevereiro deste ano.
B) O episódio 1, “O Direito Negado – A Origem da Crise”, está disponível neste canal.